Sob o mote repensar as funções sociais do Estado, nasce uma nova saga deste Governo. Esta novidade dos nossos governantes já tem gente a trabalhar numa proposta: 15 técnicos do FMI e do Banco Mundial; já tem data definida de apresentação: 25 de Fevereiro de 2013; já tem data de aplicação: os seus efeitos far-se-ão sentir em 2014; já tem limites bem definidos: cortar 4.000.000€; e já tem muitas vozes defensoras e criticas.
Comecemos pelas justificações. Segundo o Ministro das Finanças, passo a citar: “existe aparentemente um enorme desvio entre aquilo que os portugueses acham que devem ter como funções sociais do Estado e os impostos que estão dispostos a pagar para assegurar essas mesmas funções” [esta frase pode dizer muita coisa e pode não dizer nada. Uma das possíveis interpretações pode culpabilizar os portugueses por não quererem pagar impostos]. Já Passos Coelho diz que “o Estado só deve fazer o que fizer bem e deve fazer muito bem o que deve fazer” [se a frase do outro tinha mais que uma interpretação, esta acho que não tem nenhuma… Acaba por ser uma frase vazia de significado. Eu pergunto: o que é que o Estado faz bem?].
Os técnicos convidados para auxiliar o Estado na preparação desta proposta irão reunir com os membros do Governos e outros responsáveis, para recolher informação detalhada sobre as funções do Estado em cada uma das áreas da governação. Os modelos que servirão de exemplo para aplicação vêm da Argentina, Nova Zelândia e Suécia [como sempre importamos modelos de outros países que depois se revelam inadequados à realidade nacional]. Estes técnicos terão de apresentar cortes de 4.000 milhões de euros nas áreas da saúde, educação, segurança social e forças armadas [não sei muito bem onde é que se pode cortar mais nestas áreas, mas eles é que são os técnicos].
Esta novidade não está prevista no memorando da troika e o Governo espera poder contar com os partidos, nomeadamente com o PS mas este já se negou a “alinhar”. O BE diz que isto não passa de uma descaracterização do estado social [mas destes já era de esperar porque são contra tudo, aliás deviam mudar de nome para PCT – Partido do Contra Tudo]. O Presidente da República defende um debate aprofundado, apelando ao Governo para envolver todas as forças políticas e a sociedade portuguesa em geral [volta e meia já vêm com esta treta de envolver a sociedade neste tipo de debates mas depois não se vê nada, veja-se o exemplo da reforma administrativa do território…].
Vamos aos factos. A despesa pública portuguesa com prestações sociais representa 21% do PIB (dados de Março de 2012), estando abaixo da média europeia. As preocupações do Estado deveriam centrar-se numa primeira fase nas áreas onde a média portuguesa está bem acima da europeia e isso poderia servir de base à tal refundação… O emagrecimento do Estado é prioritário e deve ser feito antes de qualquer mexida ou em alternativa, fazerem-se acertos simultâneos porque uma mexida pode levar à outra.
Há já quem aproveite a boleia para a revisão da Constituição, no entanto já foi esclarecido que as mudanças que se pretendem não chocam com a constituição, pelo que não há necessidade de se mexer no texto fundamental da nação [mesmo que fosse preciso mexer não tinham hipótese porque o PS se recusou, por isso isto pode ser a desculpa de backup].
Refundar é fundamental, acho que disso ninguém discorda [excepto o BE], pois só refundando se pode baixar a carga fiscal imputada aos cidadãos, principalmente aos trabalhadores. Resta saber que tipo de Estado queremos. Um Estado pai de todos? Ou um Estado regulador? É necessário garantir as áreas fundamentais como a segurança, a defesa, a política externa, a justiça, a saúde e as áreas sociais mas tudo o resto poderá ser acessório. Há que cortar na despesa do Estado em sectores onde não se justifica a sua presença para que se possa, deste modo, garantir o futuro do Estado social.
Olá olá..
ResponderEliminarEm primeiro lugar dar-te os parabéns pelas crónicas!
Admitindo-me desde já como uma leiga em assuntos políticos, gostaria apenas de acrescentar uma ou duas coisas à tua conclusão:
Quando referes que "O emagrecimento do Estado é prioritário e deve ser feito antes de qualquer mexida ou em alternativa, fazerem-se acertos simultâneos porque uma mexida pode levar à outra", eu concordo plenamente. Problema dos problemas: O governo desconhece muitas das despesas do estado e, como tal, não pode poupar naquilo que não sabe que gasta! O primeiro passo, no meu ponto de vista seria enumerar/ listar e depois cortar!
Claro está que, cortar na saúde, educação, justiça, segurança social, etc..., é o mais fácil! [Até porque já não somos um país com raízes católicas e por isso já não precisamos de cortar na ostentação e na luxuria que se vai exibindo numa percentagem, ainda que mínima, da população e por vezes dos próprios governantes].
Apesar disto, e prezando muito pela verdade, diga-se, desde já, que existiram alguns cortes e aumentos de taxas [em especial na área da saúde que é a área que mais conheço] que são de extrema pertinência:
- Vejamos o aumento da taxa moderadora numa consulta de urgência: arrisco-me a dizer que mais de metade das pessoas que recorriam à urgência no período nocturno antes da subida das taxas moderadoras, poderiam perfeitamente recorrer ao Centro de Saúde. Era claro mais cómodo,no entanto levava ao "desperdício" de recursos altamente especializados e, acima de tudo, muito caros! Não acredito que alguém morra por não ter dinheiro por ir a um serviço de urgência (até porque, até ver, ainda vivemos em Portugal e não nos EUA - [e viveremos mais rápido na China que nos EUA, para mal dos nossos pecados])... No entanto, acredito que exista uma utilização mais equilibrada dos recursos o que leva, sem dúvida, a uma diminuição dos custos em saúde!
- Quem diz isto, diz a [pelo menos] "tentativa" de diminuição dos lobbys da industria farmacêutica! Podendo ser avaliado como um "pau de dois bicos", pois acredito que existissem ainda alguns médicos que prescreviam por acreditar que aquele medicamento era o melhor para o seu utente, a maior diferença que vejo é alteração do facto de ser o laboratório [que desse a melhor viajem ao médico] a escolher o medicamento que o utente iria tomar, para ser o próprio utente a fazê-lo!
Livre arbítrio?
Não penses, com isto, que estou de acordo com as atitudes politicas inerentes ao assunto a que se refere o título da tua crónica... Nada disso! Aliás, comecei por dizer [por outras palavras] que os TPC's para os senhores ministros das finanças e respectivos secretários de estados, adjuntos e assessores seria fazer uma lista para perceberem onde é que o seu ministério está a gastar...
Relativamente à frase "O Presidente da República defende um debate aprofundado, apelando ao Governo para envolver todas as forças políticas e a sociedade portuguesa em geral", tenho apenas uma questão:
- O senhor já saiu da sua greve de palavras? Acabou com a tortura do silêncio?
Pena que após tanto tempo de cenáculo e reflexão, não tenha sido iluminado com ideias inovadoras que tanto fazem falta ao nosso país...
Parabéns pela tua reflexão, com a qual concordo integralmente e, desculpa as larachas, mas não poderia deixar de as dizer...
Obrigado pelo contributo. Concordo plenamente que o Governo não tem real noção do aparelho Estado nem das reais despesas que cada sector representa, por isso tem obrigatoriamente de fazer esse levantamento (à semelhança do que foi feito com as fundações).
EliminarRelativamente às taxas moderadoras são exorbitantes nalguns casos e as isenções não estão a ser atribuídas com base no presente mas sim baseando-se na declaração de IRS com ano e meio de atraso, o que significa que na maioria dos casos não reflecte a situação actual das famílias e dos cidadãos. Dois exemplos: uma pessoa que estava a trabalhar com um bom ordenado e que agora se encontra desempregado, ou uma família que perdeu um membro do seu agregado por ter falecido.
Quanto à PR continua igual a si mesmo...
Penso que a ausência de identificação se deve a um esquecimento. E espero continuar a contar com contributos, pois este espaço foi criado com o intuito de ser de diálogo e não para eu "monologar".