Muito se tem falado na privatização/concessão da RTP. Já ouço falar disto, pelo menos, desde o governo de Durão Barroso mas o que é certo é que até agora continua tudo ou quase tudo igual.
Uma das grandes bandeiras deste governo durante a campanha eleitoral era precisamente a resolução desta situação escandalosa da RTP, um canal público que “come” de três lados: Estado, publicidade e a tão famosa taxa de audiovisual que todos os portugueses são obrigados a pagar na factura da luz, mesmo que não tenham sequer televisão ou sejam subscritores de um serviço de tv paga.
O ministro mais famoso deste governo (pelas piores razões) chegou cheio de ideias, de vontade de arregaçar as mangas e começar a trabalhar nesta questão mas, na verdade, praticamente ano e meio depois nada mudou.
Comecemos pela rádio.
Todos conhecemos a Antena 1, Antena 2 e Antena 3 mas poucos sabem que na verdade existem 16 canais de rádio e não apenas estes três.
A Antena 1, cujo slogan é Liga Portugal, dedica-se sobretudo à informação e atinge uma audiência média de 5%. [não existe a TSF que faz o mesmo?].
A Antena 2 – A Arte que toca – tem um público alvo muito específico, tão específico que a sua audiência não chega a 1%.
A Antena 3 (que não tem slogan) é uma rádio mais “generalista” com uma programação composta por algumas rúbricas e muita música relativamente recente. É uma rádio mais “jovem” e que abrange um leque mais vasto de ouvistes, mas ainda assim só obtêm 3,7% de audiência.
As outras são rádios pequenas que se destinam à Madeira (RDP Madeira-Antena 1, RDP Madeira-Antena 3), Açores (RDP Açores-Antena 1), África (RDP África) e ao resto do mundo (RDPi). Há ainda as rádios temáticas: Antena 2 Ópera, Rádio Lusitânia, Rádio Vivace, Rádio Antena 1 Vida, Antena 3 Rock, Antena 3 Dance, Antena 1 Fado e Rádio Guimarães 2012. Quantos ouvintes terão estas estações de rádio?
Quando tanto se fala em cortes, em “refundação do papel do Estado”, etc. não seria boa ideia repensar de uma vez por todas o que é o serviço público de rádio? [se é que existe]
Vejamos agora o caso da televisão.
Na televisão temos 8 canais (9 se contabilizarmos a RTP mobile) mas para que público? Com que audiência? Com que visibilidade? Com que viabilidade financeira?
Comecemos pela RTP1, o principal canal público, com uma audiência de entre os 12 e os 15%. Vejamos a sua programação diária (de 2.ª a 6.ª): noticiário matinal, programa da manhã [igual ao dos outros canais], noticiário da hora de almoço, novela brasileira [excelente serviço público], programa da tarde [que também é igual ao das outras estações], noticias regionais, “o programa do gordo” [um programa que se arrasta há anos e que já enjoa], noticiário da hora de jantar, documentário ou entrevista ou reportagem, curso [que vai mudando mas sempre ou quase sempre com o mesmo apresentador], documentário ou telefilme, 5 para a meia noite [um programa com este nome não devia começar a essa hora?] e um filme [filmes pela madrugada como fazem os outros canais].
Como se pode ver este canal dito público é em quase tudo igual aos privados a quem faz concorrência. Onde está aqui o serviço público? Exceptuando os noticiários, o noticiário regional, as entrevistas, os documentários e as reportagens, tudo o resto é mais do mesmo. Afinal de contas qual é o papel de uma televisão pública? Quando é que vamos ver um bom filme em horário nobre enquanto os outros passam novelas brasileiras e novelas da vida real? Quando vamos ter boas séries em horários decentes? Quando vamos ter programas da manhã e da tarde que em vez de fazerem chorar e contar histórias da carochinha, promovam o nosso país? E a ficção portuguesa? Porque é que a RTP entrou no comboio dos telefilmes a reboque das outras quando devia ter sido pioneira? E porque é que os bons filmes portugueses não passam neste canal?
Quando é que a RTP vai deixar de ter publicidade? Em Espanha os canais públicos não têm publicidade, bem como em vários países da Europa e por esse mundo fora. Por cá o único que já não tem é a RTP2.
A RTP2 com audiências que rondam os 3%, já morreu mas nem a própria se apercebeu. Ninguém vê mas quando se fala em fechar aparecem milhares de espectadores assíduos. Nem tudo é mau naquele canal mas é muito pouco o que se aproveita. Na minha opinião devia-se escolher o que de facto interessa, colocar num único canal generalista e acabar de uma vez por todas com o segundo canal. Obviamente que isso implica uma refundação da RTP1 mas foi a isso que este governo e a nova administração se comprometeram.
A RTP Informação é mais um canal de notícias igual à SIC Notícias e à TVI24. Justifica-se num país tão pequeno a existência de três canais de notícias cuja programação é praticamente igual? Mais uma vez temos o público a fazer concorrência com os privados. Um canal caro cuja audiência flutua entre os 4 e 5%. É viável? Não creio!
Diria que a RTP Memória é o único que realmente faz serviço público ainda que não agrade a gregos e a troianos. Os arquivos da RTP são um espólio riquíssimo e fazem parte da história nacional mas há certos programas que não entendo porque estão a repassar, tirando espaço a alguns programas documentais que fariam todo o sentido para que a memória não se perca.
A RTP Açores e a RTP Madeira têm em grande parte a mesma programação que a RTP 1 ou a RTP Informação. Será que os gastos destas duas estações se justificam? Não seria mais económico e mais viável ter horários específicos para emissões regionais?
Por último temos a RTP África e a RTP Internacional que supostamente têm missões diferentes mas que na prática são dois canais internacionais e que não se entende a existência de ambos. Dizem que o primeiro tem como função (uma entre muitas) manter/promover a língua portuguesa nos PALOP. Pergunto eu: a RTP Internacional não “fala” português? Porque é que os contribuintes portugueses têm de pagar mais um canal para um público específico? Tal como nos dois canais anteriores, também aqui se poderia encontrar horários para essas emissões.
Em suma, defendo a reestruturação do canal 1, a venda do segundo canal, o fecho do canal de notícias, a manutenção da RTP Memória, a fusão dos canais das ilhas (ficando apenas com algumas horas de emissão, talvez integradas no canal 1), bem como a fusão dos dois canais internacionais.
Por fim não posso deixar de criticar o facto de que estes canais não estejam todos disponíveis na TDT para todos os portugueses, pois todos os pagam (e a dobrar) mas só alguns os vêm (pagando a triplicar). Não esquecer que a nossa TDT é a que tem o menor número de canais da Europa e a única que só disponibiliza os canais que anteriormente existiam no serviço analógico.