A troika quer uma maior aposta no transporte ferroviário. A Linha de Cascais é a única para a qual se conhecem publicamente as intenções do Governo. De acordo com o Secretário de Estado dos Transportes, esta linha precisa de um grande investimento e como o Estado não tem dinheiro para o fazer, vai entregar a privados.
Carlos Carreiras, o iluminado edil de Cascais, vem logo todo contente aplaudir a intenção do Governo. Quero ver depois como é que este senhor vai explicar às milhares de famílias que diariamente utilizam aquela linha, quando os preços dispararem, devido aos tais investimentos dos privados, porque ninguém vai para ali investir a fundo perdido! Os utilizadores é que vai ter de pagar com língua de palmo.
Que é preciso investir no sector ferroviário, já muitos perceberam, não é preciso virem cá os suprassumos da troika dizer isso mas o caminho não é o da concessão a privados. Como já disse isso fará disparar os preços e consequentemente diminuir ainda mais o número de utilizadores. O que é necessário é adequar a oferta por forma a que esta dê resposta aos utilizadores, quer a nível de custos, quer a nível de horários, quer a nível de conforto.
Vejamos o caso da linha da Beira Baixa (no intercidades). Desde que houve obras de largos milhões de euros para a sua electrificação, não só não houve uma melhoria na diminuição do tempo de viagem, como piorou drasticamente o serviço com a introdução de veículos obsoletos que só têm uma casa de banho numa das três carruagens e já não tem o tradicional bar onde se podia petiscar qualquer coisa. Se uma viagem de autocarro demora 3h30 por 14,50€ porque é que as pessoas hão-de pagar 24,00€ (em 1.ª classe) ou 17,00€ (em 2.ª) se a duração da viagem é ainda superior (3h44) e o conforto é praticamente o mesmo? A única diferença é que no comboio se pode “esticar as pernas” mas como as pessoas não têm dinheiro, preferem encolher as pernas e poupar 2,50€ por viagem.
Com o investimento que foi feito nesta linha, o comboio tem condições para chegar mais rápido mas isso não acontece porque as máquinas não têm capacidade, não estão à altura das infraestruturas! Isto é que é rentabilizar o investimento? Com uma linha que tem 3 comboios diários em ambos os sentidos? Caros, sem condições e com horários que não servem os interesses dos utentes. Depois admiram-se que os comboios andem às moscas… O intercidades de hoje tem de estar adaptado à realidade, tem de estar dotado de serviço wi-fi que permita aos seus passageiros utilizar a internet quer seja para trabalho quer seja para lazer. Também deveria permitir a ligação dos computadores à electricidade, pelos mesmos motivos, permitindo assim a sua utilização durante toda a viagem. Muito mais haveria para dizer sobre a evolução/adaptação do comboio mas para já fico-me por aqui. Estou certo de que este passo em frente, iria captar outro tipo de utentes, nomeadamente aqueles que necessitam de rentabilizar o tempo, estamos a falar de estudantes que podem estudar ou fazer trabalhos durante o percurso, estamos a falar de homens de negócios que precisam de preparar uma reunião que vão ter, etc., etc., etc..
O caminho do Governo não tem sido este e mesmo agora que se vê obrigado a alterar o rumo do caminho de ferro, resolve entregar a outros em vez de planear uma revolução neste sector que deveria ser estratégico para o país. Aquilo que temos visto neste últimos anos é um encerramento constante de linhas, sendo que algumas delas eram a única ligação que as populações tinham (veja-se o caso do norte do país com a linha do Tua, por exemplo). A própria linha da Beira Baixa ficou interrompida na Covilhã, onde a ligação à Guarda foi votada ao abandono. Na sua origem estará uma ponte que já não tem capacidade para aguentar o peso do comboio. Em vez de se reparar esta infraestrutura, fecha-se a linha e tira-se um transporte rápido e seguro às populações. É este o país que temos!
A Espanha seguiu o mesmo caminho de encerramento e anos mais tarde apercebeu-se do erro e teve de voltar atrás. Por cá o destino deverá ser semelhante.
Para terminar, voltemos ao Sr. Carlos Carreiras adepto fervoroso desta medida. Há que referir que esta linha tem 123 anos (inaugurada na sua extensão total em 1889) e foi uma das primeiras no nosso país. Foi alugada a privados entre 1914 e 1975 A concessão só se fará para o próximo ano, sabe-se lá quando. Até lá ainda muitos comboios vão circular e quem sabe se a concessão não descarrila…
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